Gigantes de inverno


Ruy Varella
16/06/2016

Uma pescaria dos troféus mais cobiçados do Paranazão com iscas vivas anuncia a chegada de uma temporada de inverno pra lá de quente em Ita Ibaté, na Argentina

 

Para aquele pescador que sonha com grandes peixes na linha, nada mais justo que recomendar a vizinha Argentina, onde passa o Rio Paraná, mais precisamente nas imediações da pequena cidade de Ita Ibaté. Uma região em que desejos se tornam realidade na forma de enormes surubins e dourados, e é atrás deles que vamos em mais uma aventura na região, a convite da Gêmeos Pesca Esportiva.

Ao invés do costumeiro céu azul e ensolarado, porém, nos deparamos com tempo feio, leia-se nublado e um pouco frio. O jeito é se agasalhar e ir à luta! Não adianta fazer cara amarrada. Sabemos que, no fundo, quem faz a pescaria não é o dia ou o tempo, é o pescador. Felizmente, esse tipo de virada dificilmente interfere na condição das águas do Paranazão, que se mantêm limpas a maior parte do tempo, são o que chamo de águas de dourado. Quando turvam um pouco e começam a esfriar nas cabeceiras, tornam-se especiais para os grandes surubins.

Técnica do momento

Logo na chegada, ao encontrar os irmãos Diego e Daniel na beira do rio, tratamos dos detalhes da pescaria. Estamos no início da semana, quando as comportas da represa de Yaciretá, em Ituzaingó, costumam ser abertas para elevar o nível do rio e assim permitir a navegação no trecho a jusante. Por ser rotineiro, o fenômeno já parece ter sido assimilado por peixes e pescadores. Os gêmeos, diga-se de passagem, mesmo frequentando a região há mais de vinte anos, dificilmente ficam um dia sem ir para a água quando estão por lá.

A técnica do momento é exaltada com entusiasmo: “O peixe está comendo na isca viva”! Schumacher, como é conhecido o guia Atilio Rudy, também aguarda ansioso a hora de partir, comentando que os clientes da semana anterior fizeram uma pescaria para ninguém botar defeito de grandes dourados e surubins. De fato, logo na manhã do primeiro dia somos contemplados com lindos exemplares do rei do rio, mostrando a importância de seguir as orientações de quem está permanentemente conectado à água. Inventar moda, ou seja, ficar insistindo em outras modalidades, é improdutivo, visto que cada minuto no rio é valioso.

Cheia de técnicas e emoções particulares, a pesca com iscas vivas também tem seus desafios. Cada topada da isca ou da chumbada nas pedras pode ser confundida com a mordida de um peixe, é preciso desenvolver certa sensibilidade para interpretar a diferença. Da mesma forma que fisgadas equivocadas têm grandes chances de resultar em incômodos enroscos, sofrer a ação de um grande predador e simplesmente “deixar quieto” pode resultar em peixe perdido ou uma batida violenta levando vara e tudo para o fundo.

Ares invernais

As primeiras rodadas acontecem em um ponto onde as águas correm velozes, em profundidades entre 10 e 15 metros. Sabemos que é um trecho frequentado por gigantes, incluindo grandes jaús e espécies onívoras como pacus e piaparas. Com o clima aos poucos ganhando ares invernais, a tendência é de que os peixes de couro comecem a encostar. Ainda assim, nos horários de calor, os dourados continuam mostrando a cara. Como já tivemos o gosto de pegar alguns, decidimos mudar o foco da busca.

No dia seguinte, deixando a preguiça de lado, antes de o sol se mostrar já estamos no rio atrás de fisgadas. Como diz o velho ditado, Deus ajuda quem cedo madruga! O amanhecer, bem como o fim da tarde, mostra-se o horário mais produtivo, escolhido pelos grandes peixes para se alimentarem, provavelmente sentindo-se mais à vontade e protegidos pela menor luminosidade. Outro detalhe é a escolha da cancha de pesca: ao invés de pontos tradicionais, frequentados pela maioria, damos preferência a áreas boas e menos movimentadas conhecidas por Schumi para a rodada. As extensões de água no Paranazão são grandes, estamos pescando praticamente na fronteira entre a Argentina e o Paraguai.

Dessa vez, o ditado “Deus ajuda quem cedo madruga” funciona: as grandes fisgadas acontecem ao amanhecer e no fim da tarde

Nas primeiras passadas, as iscas recebem frequentes visitas de pequenos peixes. Apesar da busca ser por surubins, os grandes dourados estão ativos, e é claro que não nos queixamos ao sentirmos suas pegadas certeiras; é dar um pouco de linha para o bicho e caprichar na fisgada, confirmada com uma bela corrida de tomar linha da carretilha seguida de um salto ao longe, em sua tentativa de livrar-se do anzol. Nada mau enquanto os peixes lisos não vêm.

Taí o bigodudo!

Novo dia chega e dessa vez o ponto escolhido é bem próximo à pousada, em pouco mais de 15 minutos de navegação as linhas já estão na água. Com nuvens carregadas, frio e chuva ameaçando cair a qualquer momento, o tempo não é dos mais animadores. Realmente, a manhã transcorre sem uma única batida de peso, mesmo os dourados já não comem como nos dias anteriores. Ao que Schumacher, até então em silêncio, diz: “Já, já, vamos ter uma surpresa, os pintados devem estar encostando”. Será?

Em dez minutos a resposta vem na forma de uma batida firme que de imediato faz o equipamento despejar muita linha na água. “Taí o bigodudo!”, grito ao guia e parceiro, que imediatamente manobra o barco para escoltar o peixe. Esse é um momento crucial em que não se pode deixar a linha bambear, sendo necessário recolher rapidamente qualquer excesso, são momentos dominados pela adrenalina. Pescadores em outros barcos acompanham a cena de camarote entre aplausos e gritos, está ali mais um belo “surubí” capturado.

Ao fim da briga, a surpresa: não é qualquer pintado, mas um gigante do meu tamanho, enorme, digno de Ita Ibaté! Corremos para a beira do rio, onde é mais fácil manusear e fotografar o animal. Os cliques são feitos perto da água e é direto para ela que o monstro volta logo em seguida, com todo o cuidado, levando a cabo a atitude mais correta que nós, pescadores, podemos ter para contribuir para que matrizes genéticas como essa continuem vivas e ativas na natureza. O mesmo vale para dourados grandes, quase todos fêmeas (raramente o macho chega a ultrapassar oito quilos).

Ao contrário da margem argentina do Rio Paraná, infelizmente não há cota zero para o dourado ou restrições na captura de surubins no lado paraguaio. Não bastasse matarem seus peixes, ainda são comuns relatos de travessias ilegais e espinhéis soltos em águas argentinas. Mesmo assim, o Paranazão felizmente continua proporcionando pescarias de sonhos para os que frequentam a região. Missão cumprida, ainda dá pra dar alguns pinchos atrás de dourados menores, piracanjubas e pacus com iscas artificiais nas margens. Mas é só sentir o gostinho mesmo. Essa é uma história que fica para a próxima, pois nossos quatro dias de pesca já se foram.

 

 

Fotos: Ruy Varella/Diego Simon/Daniel Simon/Atilio Rudi

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