Ele tem a força


Jum Tabata
08/07/2016

Nada abala o bom-humor de Andy Hahn, o americano que fez história na mídia de pesca, apaixonou-se pelo Brasil (e por uma brasileira!) e fez daqui seu novo lar

 

O sorriso espontâneo no semblante deste norte-americano de cinquenta anos, radicado no Brasil há vinte, sobrepuja de imediato toda a fragilidade transmitida por seu corpo, fruto de uma inexorável doença degenerativa. Os ouvidos têm de estar atentos para ouvi-lo, nem tanto pelo baixo tom de sua voz, mas pelas incríveis e cativantes histórias que tem para contar. Você pode não conhecê-lo, mas, se lê revistas de pesca, provavelmente recebeu as influências de seu trabalho em publicações brasileiras – inclusive esta! – e num dos principais títulos americanos do segmento. Ele abriu as portas de seu apartamento em Copacabana para um bom bate-papo (em português bom e claro) sobre a intensa relação entre sua vida e a pesca. Com vocês, Andy Hahn.

Bases

Natural da cidade de Pittsburgh, Pensilvânia, Andrew J. Hahn vem de uma família numerosa, com sete irmãos. “Minha mãe, hoje com 86 anos, nem sentiu minha falta quando vim para cá”, brinca. Único da linhagem com gosto pela vida outdoor, Andy tem formação em produção de vídeo e fotografia, e começou sua carreira profissional como fotógrafo científico em uma faculdade americana de medicina.

Ligia Leite

Pode ser considerada um divisor de águas na vida de Andy, sendo a grande responsável pela vinda do americano ao Brasil. Conheceu-a durante o doutorado dela nos EUA. Casaram-se em 1 987 e vieram para o Brasil em 1 990. “Eu sabia que eventualmente teria de vir para cá, tanto é que comecei a estudar português desde antes. E encarei com naturalidade quando o momento chegou”. Andy deu aulas de inglês, fez traduções e trabalhou como fotógrafo em seu início no país. Não faltam elogios e carinho à esposa: “Durante minha carreira toda, o apoio moral constante da Ligia foi importantíssimo, ela sempre me incentivou a fazer o esforço necessário para realizar meus sonhos. E ela sempre pegava peixes grandes para garantir boas fotos para minhas matérias!”.

 

Revistas brasileiras

Andy não demorou a se tornar leitor das revistas brasileiras de pesca. E logo viu que poderia contribuir com mais informação. Sua estreia ocorreu através de uma reportagem publicada na revista Troféu Pesca no fim de 1 992. “Foi sobre o smallmouth bass, um dos meus peixes preferidos”, conta. Posteriormente, colaborou com a revista Pescador e também aqui, em Revista Pesca Esportiva (de 2 001 a 2 004), chegando a ficar no comando uma revista própria, a Pescando, em 97 e 98. “A equipe era muito enxuta, formada por mim, Ligia e alguns poucos colaboradores”. Destacou-se pela cobertura dos torneios de pesca oceânica, onde fez amizade com pescadores do ICRJ.

Sport Fishing

Em 1 995, Andy conheceu Doug Olander, até hoje editor-chefe da revista Sport Fishing, uma das principais publicações de pesca dos Estados Unidos, com a qual passou a colaborar. Em 1 998, o estreitamento de laços ganhou força e veio o convite para ser editor-assistente efetivo da revista. Andy mudou-se com Ligia para Orlando para compor o staff da revista, onde fazia revisões, escrevia colunas, fotografava e editava textos. Em 2 001, por motivos familiares, a esposa teve de voltar para o Brasil. Andy veio junto e, durante um ano, atuou como colaborador freelancer da revista. No entanto, a direção da revista queria uma atuação mais efetiva sua, e terminou por recontratá-lo em 2 003 – à distância. “Isso foi possível graças à internet e às quatro ou cinco viagens que eu fazia por ano para lá”. Em 2 007, com o progresso da doença, o ciclo teve de ser interrompido. Mas a retirada efetiva da revista só ocorreu em 2 011. Ao longo da carreira, Andy amealhou mais de 40 prêmios de diferentes entidades da classe jornalística. Considera-se realizado e, é claro, orgulhoso por suas conquistas.

A doença

Tudo começou com falhas de movimento e o gradativo aumento na dificuldade para andar. Após as baterias de exames, veio o diagnóstico: Esclerose Lateral Amiotrófica, ou ELA, uma doença neurodegenerativa que acarreta uma severa e irreversível perda de massa muscular que incapacita seu portador à medida que avança – sem, contudo, afetar sua capacidade intelectual ou sua sensibilidade sensorial (visão, olfato, paladar). “Não se conhece direito a causa, tampouco a cura da doença”, explica Andy. Mais difícil do que a aceitação foi adaptar-se às limitações impostas pela nova condição. “Pescar não dá mais, mas ainda posso praticar minha outra paixão, a caça, com as devidas adaptações e a ajuda dos guias. O gatilho, por exemplo, aciono com a boca”. Entre suas conquistas recentes estão cervos e javalis capturados em reservas de caça na Argentina e Estados Unidos.

A pesca no Brasil

Tendo vivenciado intensamente duas realidades bastantes diferentes na pesca, Andy é enfático ao apontar aquela que, em sua opinião, é uma das principais deficiências da atividade no país: o potencial de pesca brasileiro não possui ainda um nível de acesso à altura. “Faltam áreas públicas preparadas para receber o pescador, fazendo com que a realização de uma boa pescaria aqui pese mais no bolso”. Ele cita, como exemplo próximo, a falta de rampas públicas no Rio de Janeiro. E prossegue. “Infelizmente, além de haver poucas leis, não são todos que as seguem. Respeitar períodos de defeso e tamanhos mínimos de captura faz diferença na conservação”. Praticante do pesque e solte desde a infância, lembra-se que chegou a ser vaiado ao soltar as garoupinhas fisgadas em costões do Rio.

Pescarias marcantes

Além do smallmouth bass, peixe americano típico de locais com água corrente, Andy exalta sua paixão pelo sailfish. “Você pode pescar vários em um dia e, o que é melhor, o peixe não acaba com você”, reflete. Lembra-se de uma jornada na Guatemala em que fisgou quatro exemplares num dia – e Lígia, onze. “E ela ainda brigou com todos sem ajuda alguma, já que era um torneio e essa era a regra”. Foi também desse mesmo país que veio seu maior troféu, um marlim-azul de cerca de 150 quilos. “Antes de ser liberado, fotografei bastante o peixe, e o trabalho acabou rendendo mais de uma capa da Sport Fishing”. No Brasil, lembra-se em especial das viagens para o Pantanal, com destaque para o dourado, e para os rios Uatumã e Negro, na Amazônia, onde a estrela foi o tucunaré. “Uma pescaria emocionante e com visual fantástico!”, lembra.

Hoje

Andy conta que, como não gosta de ver TV, passa a maior parte do tempo no computador, mandando e-mails para amigos ou escrevendo artigos. Atualmente, é colaborador de uma revista de caça e pesca americana exclusivamente voltada para cadeirantes, a Wheeling Sportsman. Os passeios não são muito frequentes em razão, principalmente, das más condições das calçadas. Mas quando vai às ruas, é em grande estilo: em 2 011, desfilou no carnaval carioca pela escola Tradição, que tem uma ala de cadeirantes. “Fui de caipira”, diverte-se. Entre idas e vindas, Andy completou 20 anos morando no Brasil. “Aqui é minha casa!”, diz, com o mesmo sorriso de quando fala de onde veio tanta paixão pela natureza e pela pesca: “De dentro”.

 

 

Fotos: Jum Tabata

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