A evolução das linhas de pesca


César Pansera
05/09/2016

“Mono”, “multi”, náilon, fluorcarbono… A mais vital das ligações entre o pescador e o peixe atende por vários nomes, e saber escolher a linha certa é dar o primeiro passo rumo a pescarias mais técnicas e produtivas

 

 

A evolução de equipamentos em quase todos os esportes é constante, e o mesmo vale para o caso da pesca. Não importa o quão básico seja o item usado na prática da atividade – um anzol, uma isca, um peso – ele acabará sofrendo modificações com o passar dos anos. A linha de pesca, absolutamente vital para o sucesso de qualquer pescaria, foi um dos elementos que passou pelas mais significativas transformações nas últimas décadas. Hoje, podemos dividi-las em dois grandes grupos: o das linhas de multifilamento e as de monofilamento, que, por sua vez, geraram subprodutos como o náilon, o fluorcarbono e as fibras conhecidas mundo afora como Dyneema e Spectra.

Os benefícios das superlinhas

É fato que, a despeito da isca ou técnica, a linha principal que preenche minhas carretilhas e molinetes em 90% das pescarias que realizo atualmente é de multifilamento, e com espessura não superior a 0,28 mm (ou cerca de 30 libras). As linhas de multifilamento (a rigor, multifilamentos), como o próprio nome sugere, são fabricadas através da união de vários fios de materiais diferenciados, seja por meio de tranças (daí seu nome em inglês, “braided lines”), da microfusão desses mesmos fios-base ou de um processo misto que gera as modernas linhas híbridas.

Uma linha de multifilamento pode ter até 240 fios (4 tranças de 60 fios cada) e ainda contar com tratamento de resina, conferindo-lhe ainda mais resistência e baixa absorção de água

As fibras de Spectra e Dyneema compõem a base da maior parte das linhas de “multi”, que, independentemente do processo adotado em sua fabricação, têm elasticidade muito baixa (em geral, entre 6% e 3%) e grande resistência com baixa espessura. As linhas fundidas (“fused lines”) podem ser mais “duras” (menos macias) e possuir perfil disforme em relação às trançadas, mas costumam apresentar um ganho ainda maior na relação resistência – baixo diâmetro.

Quando o pescador utiliza o multifilamento como linha principal, os toques realizados são transmitidos muito mais rapidamente até a ponta da linha e, consequentemente, para a isca artificial. Obtém-se, por exemplo, a ação ideal de grandes iscas de superfície sob um menor esforço. A fisgada (strike) também será mais eficaz, tornando a linha ideal para pescarias de fundo que, além de sensibilidade para tatear o leito, exigem respostas imediatas.

A baixa elasticidade das linhas de multi também ajuda na briga com peixes capturados junto a estruturas muito fechadas. E, por serem finas, é mais fácil esticá-las quando há uma boa quantidade de linha na água ou quando a mesma sofre interferências como a da força da maré, a correnteza de um rio ou simplesmente a ação do vento e de marolas.

A cor base do multifilamento é o branco. Porém, pigmentos coloridos, normalmente em verde, amarelo e vermelho, são aplicados aos fios para que ganhem cor. Para a pesca em altas profundidades, há linhas com cores distintas aplicadas em determinados intervalos de comprimento (a cada dez ou cinco metros, por exemplo), ajudando o pescador a identificar a profundidade do local ou em que ponto estão ocorrendo as ações.

Com o tempo e a frequência de uso, toda e qualquer linha de multifilamento sofre desgaste pelo atrito com os passadores das varas e os diversos tipos de estrutura existentes nos pesqueiros. Linhas trançadas gastas tendem a ficar esfiapadas e mais ásperas, enquanto as fundidas, ao contrário, perdem textura e ficam mais lisas. Em ambos os casos, é importante ficar atento e descartar as partes danificadas ou “inverter o carretel” (veja nas dicas) antes que haja perda significativa de resistência.

Quando o mono leva vantagem

Até cerca de vinte e cinco anos atrás, as linhas de monofilamento eram a principal opção disponível para o pescador. Sua principal matéria-prima base, o náilon ou poliamida (polietileno 100%), possui elasticidade bem maior que a das linhas de multifilamento, normalmente oscilando entre a casa dos 20 e 30%. Porém, seu surgimento na década de 1 950 já foi um grande avanço em relação às rudimentares linhas (trançadas!) de poliéster conhecidas como dacron. Ainda hoje, o monofilamento de náilon pode ser considerado o mais comum e econômico tipo de linha usado por pescadores de todo o mundo. No Brasil, continua sendo a escolha número um nas pescarias com iscas naturais, principalmente na água doce.

Fatores como maciez, resistência à tensão e gama de cores podem variar bastante de fabricante para fabricante. No tocante à coloração, linhas com tons fortes, como verde-limão ou laranja, podem provocar caretas em especialistas na pesca com iscas naturais, mas são bem aceitas por praticantes do baitcasting por facilitarem sua visualização durante os arremessos, colaborando para uma maior precisão.

Por sua característica de flutuar, o náilon ainda é uma ótima opção como líder na pesca com iscas que atuam na superfície e na meia-água. Sua grande deficiência nesse aspecto, a resistência à abrasão, foi suprida com a criação da linha de fluorcarbono no final da década de 1 960. O advento do “flúor” representou uma pequena revolução na pesca esportiva mundial. Mais “invisível” na água, menos elástico e mais resistente ao atrito com estruturas e a boca áspera de muitos peixes, o material – que também é consideravelmente mais caro que o náilon – ganhou mercado de imediato, como linha principal (com destaque para a pesca do black bass) e como líder nas mais diversas modalidades de pesca.

Um detalhe que deve ser levado em consideração é que as linhas de fluorcarbono afundam, podendo interferir na ação de uma isca quando sua espessura é muito grande. O pescador deve identificar o limite entre o uso do náilon ou do flúor como líder, e isso só é conseguido com a prática. Pessoalmente, quando utilizo iscas cuja flutuabilidade é mais frágil, como sticks e outros plugs de pequeno e médio porte com ação de superfície ou suspensa (“suspending”), a opção pode recair sobre o náilon, principalmente se a pescaria ocorrer em locais “limpos”, sem muitas estruturas abrasivas ao redor. No entanto, para peixes possuidores de boca ou opérculo cortantes, como o robalo, ou em pontos com substratos como pedras, cracas e galhadas, a escolha pelo líder de flúor é quase certa.

 

 

Algumas dicas

Economia de multi – para pescarias que não exigem grande quantidade de linha, não há necessidade de preencher com multifilamento todo o carretel da carretilha ou molinete. Você pode fazer uma base ou “cama” de monofilamento por baixo e fazer sua linha de multi render em dobro. As bobinas de linha com maior metragem são ideais para esse fim. Atenção: capriche no nó de emenda, nunca se sabe quando entrará um peixe que descarregará toda a linha de multi e chegará até o mono.

Na medida certa – existem, no mercado, equipamentos capazes de medir a quantidade exata de linha que está sendo colocada no equipamento. Eles facilitam a tarefa de fazer o calço de monofilamento mencionado acima e a determinar qual o equipamento mais adequado para uma determinada pescaria considerando a quantidade de linha necessária para fazê-la.

Invertendo o lado – com o uso, praticamente qualquer linha de multifilamento está sujeita a esfiapar, principalmente em sua porção inicial, que sofre mais atrito. Quando isso ocorrer, ao invés de cortar a linha e perder preciosos metros dela, você pode invertê-la no carretel do equipamento, passando a parte que estava resguardada na parte interna para a ponta.

Lave e seque – lavar a linha de multi em água doce e corrente após seu uso em água salgada irá prolongar sua vida útil. Você pode retirar o carretel da carretilha ou molinete para evitar a entrada desnecessária de água dentro do chassi do equipamento. Atenção: terminada a lavagem, não guarde o material de imediato; deixe-o secando, preferencialmente na sombra, por pelo menos um dia.

De olho no líder – a não ser que tenha sido muito pouco usado, não vale a pena fazer economia do líder, seja ele de náilon ou fluorcarbono. Corte as partes machucadas e substitua-o integralmente a cada pescaria. Nas modalidades de arremesso, o comprimento não costuma ser superior ao da vara, ou o nó de emenda poderá prejudicar os arremessos.

Carretéis diferenciados – alguns molinetes e mesmo carretilhas possuem carretéis mais rasos, específicos para linhas finas. São, via de regra, desenvolvidos e indicados para peixes e modalidades que não exigem grande quantidade de linha, como a pesca do black bass na categoria finesse, tanto com linha de mono (principalmente o fluorcarbono) como de multifilamento.

Corte perfeito – tesouras com serrilha pequena ou lâmina diferenciada podem cortar com mais perfeição e facilidade as linhas de multifilamento e fluorcarbono. Além disso, seu dentista não vai gostar nem um pouco de saber que você anda cortando linhas de pesca com os dentes…

Carretéis “encaixados” – há estojos específicos para acondicionar e guardar em casa seus carretéis de linha. Além de deixarem tudo muito organizado, permitem a saída do fio por um orifício, facilitando a colocação do mesmo na carretilha.

Precisão na espessura – você pode medir a espessura de sua linha com um micrômetro e conhecer com precisão seu real diâmetro. Algumas medidas de linha podem não bater com as descritas na embalagem.

 

 

Foto: Arquivo/Revista Pesca Esportiva

Compartilhe:

Agenda

Próximos Eventos


@revistapescaesportiva

Twitter